[Review] Kingdom – A noite dos novatos & A armadilha de Retsubi

Eu falei que os novatos não sabiam beber. Os caras bebem e já começam a tirar a roupa e dançar pelados… “Por isso eu chamo vocês de pivetes”, diria o Kanki. Eles não sabiam nem a hora certa de beber, mas aprenderam. E é sobre as lições destes últimos dois capítulos de Kingdom que pretendo falar hoje.

O 510 foi lindo, profundo e engraçado. Um capítulo que deixa na memória dois apelidos. Mas não mencione um deles, ou você pode receber uma visita noturna bem dolorosa. Eu não vou falar muito sobre as risadas e lembranças calorosas desse capítulo, pois quero dar mais espaço às especulações militares. Mas não posso deixar de mencionar as lembranças mais importantes que nos servem para dimensionar o protagonista e seu avanço, assim como também o de outros personagens.

Não vou contar a ninguém que ri muito

Os gringos da Turnip chamaram o Bihei de “scrub4life”, o que significa algo como um relaxado, um preguiçoso, alguém que não quer nada com nada da vida. Tudo isso porque ele é “apenas” um líder de esquadrão de 10 homens. Um outro, em um comentário, disse que talvez ele tenha sido rebaixado após o incidente com o Kanki. Faz sentido. Eu, porém, acho apenas que ele não faz o tipo líder. Além disso, o sistema de recompensa de Qin se baseava na quantidade de cabeças inimigas que você levava pra casa após a batalha. Se o Bihei, assim como o Taku, é bom apenas em ficar vivo, não em tirar vidas inimigas, ele não vai mesmo ser  promovido (mas pelo tempo na UHS ele poderia pelo menos ter sido colocado na cavalaria, pra dar um status maior).

Este detalhe do Bihei é interessante para nos fazer pensar na organização e na hierarquia dos exércitos de Qin, ou de qualquer outro. Tempo, experiência e histórico de batalhas não são tudo. Em uma nação completamente militarizada como Qin, certamente muitas pessoas sobreviviam a várias batalhas. Milhares delas. Mas isso não significa que todas estas receberiam promoções significativas. A surpresa de todos ao ouvirem que o Shin foi promovido a comandante de 100 homens em apenas uma batalha é o que demonstra o conhecimento, mesmo por parte da ralé, de como é difícil obter mesmo promoções pequenas (100 homens ainda é um posto baixo). Então deixem o Bihei em paz! O cara é quem traz o goró do bom. Deveriam promovê-lo por isso.

Sessão nostalgia

Sobre o Shin, preciso fazer justiça. O Bihei esqueceu, ou não sabe, que o Shin matou também um comandante de 1000 homens na primeira campanha dele. Foi depois disso que ele pegou o cavalo. Porém, pra que a justiça realmente seja feita, é sempre necessário lembrar que o Shin já possuía muito treinamento militar. É por isso que ele conseguiu fazer tudo o que fez na sua primeira campanha. Mas o Shuki/Maki foi um tanto de protagonismo. De qualquer forma, deu saudade desse Shin que saía abrindo espaço em busca das maiores conquistas. Este Shin ficou só na primeira campanha, depois ele aprendeu a ser mais prudente e seguir alguma orientação estratégica.

Kyoukai até transpira

O último item que quero destacar do 510 não traz lembranças. Ao contrário, aponta para o futuro. Vi muita gente dizendo ter visto a sombra da morte sobre o Jin nesse capítulo. Realmente, ter dois arqueiros do nível dos 10 arcos deixa a UHS um tanto overpower, mas não acho que por isso um deles necessariamente morrerá. O que eu fiquei pensando não tem nada a ver com morte. Acho que essa ausência de ação do Tan indica que podemos esperar grandes feitos vindo dele. Me pergunto se ele não será melhor do que seu irmão. Mas, por enquanto, seu lado humano é o que fala mais alto.

Ele ainda vai causar tanto que vamos esquecer desse choro

A este respeito, foi muito bacana o que a Ten falou para o Jin. Seja o “só fala” Kanto ou um arqueiro do nível dos Dez Arcos da China, todos são humanos e têm limitações próprias da condição humana. Essas, que frequentemente são encaradas como fraqueza, são o que há de comum entre todos os membros da UHS e são também a fonte da sua força. A noite dos novatos serviu para nos mostrar muito bem que não importa o quanto alguém possa ser forte ou talentoso, haverá sempre limitações próprias da sua condição humana e essas saberão sempre se impor quando for a hora, seja como tremedeira ou covardia. Fiquemos com essa lição.

Por falar em lição, Shin e Ten estão precisando de mais algumas. Mas deixemos isso para mais adiante. Primeiro, que diabos de segredo é esse!? As muralhas em “altura inadequada” por acaso não são algo óbvio? Não para nós que lemos e só temos os desenhos, mas qualquer um em frente a cidade notaria isso sem precisar entrar na cidade. Ninguém precisaria de três dias para concluir isso. E quanto aos caminhos e a dificuldade para movimentar tropas dentro da cidade, não é o que parece olhando a imagem abaixo, do capítulo 509.

Entretanto, vamos considerar que posicionar as tropas dessa maneira tenha demorado muito. Ok. Em que situação isso seria um problema de verdade? Só se fosse um cerco surpresa feito por um exército que já possui equipamentos de cerco. Me parece difícil que isso aconteça. No mais, Qin já estava em posição, em razão da ordem do Makou, então não teriam problemas em movimentar as tropas pela cidade a fim de defendê-la caso Zhao atacasse. E se a questão for mover tropas para apoiar um local que esteja com dificuldades, isso também não me parece um grande problema. Mesmo que o inimigo crie uma grande abertura em alguma parte da muralha e muitos entrem por lá, eles também terão dificuldades de se locomover pela cidade, então ficaria elas por elas. Mas, pelo bem do enredo, vamos deixar esses detalhes de lado e ficar só com a ideia principal: a cidade foi propositalmente construída de modo a dificultar a defesa.

As condições de Retsubi são secundárias no momento. Há detalhes que o Hara tem esquecido ou propositalmente ignorado por enquanto. Ele sempre foi muito claro com os números e isso nunca mais foi mencionado. Os homens de Zhao ficaram espantados com o fato de que o KSR não sitiou Retsubi, mas, quantos homens ele tem? Para um exército de emergência, eu duvido que ele chegue a 100 mil. O grosso das forças de Zhao deve estar com o Riboku, afinal foram reunidas especialmente para parar a investida de Qin no oeste. Então, o ponto aqui não é se Retsubi é ou não fácil de ser recuperada, mas que há dentro dela quase 200 mil soldados.

Todo mundo esqueceu que Qin formou o maior exército depois da coalizão?

Acho também que essa falta de números tem levado alguns leitores a fazerem previsões que desconsideram completamente isso. Vi, por exemplo, gente falando que a UHS sozinha tomaria Gyou enquanto os outros exércitos enfrentariam o Riboku e os reforços das cidades da região da capital. Outros, mais ponderados, disseram que Gyou ficaria para as três unidades independentes. Não faço ideia de quantos soldados estão protegendo Gyou, mas com certeza não são poucos. Além disso, Retsubi, mal guarnecida como estava, foi atacada por cerca de 70 mil soldados (8 mil do Shin mais 60 mil, provavelmente, da Yotanwa). Além disso, o ataque a Gyou deve sempre ser pensado de acordo com o que a Ten disse no quadro abaixo.

É claro que este ataque não é simples. Não é só mandar o exército todo contra uma cidade. O pessimista Ouhon já havia adiantado que, enquanto cercassem Gyou, seriam atacados por todos os lados. Então os 200 mil são para tomar Gyou E dar conta destes reforços. Além disso, a divina trindade deste exército serve para lhe dar mobilidade e permitir que seja multitarefas. Ninguém preenche tão bem este quesito quanto as unidades independentes. Por este motivo acredito que o cerco de Gyou não ficará para elas, a menos que a essa altura ainda estejam anexadas a algum exército. As três juntas somam 18 mil soldados. Isso dentro de 200 mil é muito pouco, o que garante que poderão se destacar sem serem percebidas. Se você as prende em um ataque de cerco, então você elimina completamente sua principal característica. Eu imagino que eles se esconderão de alguma forma e protegerão flancos e retaguarda dos exércitos maiores.

Insano

É difícil prever como será essa investida contra o (quase) coração de Zhao, mas ela agora já está garantida. E eu espero que a Ten não continue decepcionando quando a hora finalmente chegar. Ela é uma estrategista muito boa, mas não está agindo de acordo. Como ela pôde passar três dias em Retsubi e não pensar em nenhuma solução? Em Kokuyou ela dedicou menos de um dia e encontrou uma forma de atravessar o rio. Levou a UHS para uma vitória. Agora ela se encontra em uma situação que exige ainda mais uma solução estratégica e só consegue se impressionar com o fato do Mouten ter pensado em três possíveis ações? A Ten viu o problema da cidade na primeira noite. O que ela fez nos outros dias? Só passeou? Está mais do que na hora de ela mostrar do que é capaz.

Acorda pra vida, garota!

O Shin também. Ele não teve nenhuma instrução formal, não estudou estratégia, nem o básico, e nem lembro se ele sabe ler, mas já está na hora de ele parar de ser tão estúpido. Isso é mais irritante do que engraçado. E não adianta dizer que ele é do tipo instintivo porque o duque Hyou tinha lá sua noção estratégica. É só isso que o Shin precisa: noção estratégica. A experiência dele em batalhas deveria lhe dar isso. Mas o cara consegue entrar em uma cidade e não perceber que a altura das muralhas é esquisita. Ele já conduziu exércitos por cidades várias vezes e não conseguiu perceber que nesta cidade isso seria algo complicado de se fazer. Posso até considerar que ele não tenha percebido nada porque apenas estava feliz (e se achando) com a vitória, mas, no momento em que dissessem isso para ele, não era para fazer tanto escândalo. Bom, os personagens ainda não estão prontos, afinal a história ainda não acabou, então é só esperar.

Por enquanto, e por fim deste review, vamos tentar entender melhor as complicações de Qin. Desde que Shouheikun e companhia se puseram a trabalhar, a questão dos suprimentos era o maior de todos os problemas. Desde essa época eu venho tentando entender e imaginar essa linha de abastecimento e até agora não consegui. Algo parece estar faltando. Como Qin pode ter uma linha de abastecimento garantida apenas por manter o controle sobre Retsubi? Eles esperam que os soldados de Zhao nas cidades ignoradas pelo caminho simplesmente deixem os comboios passarem? Ou pretendem produzir os alimentos em Retsubi e levar de lá para Gyou?

Como este cara é foda!

Nesse sentido também, o que acontece depois do plano do Kanki? Tomam Gyou antes dos suprimentos acabarem, beleza, mas e depois, comem o que em Gyou? Pretendem usar o estoque da própria cidade? Contar com isso é contar com o ovo no útero da galinha, pois os moradores podem fugir com tudo que puderem carregar e destruir o que não puderem. Os alimentos estocados podem ser queimados ou envenenados. A água também. O exército de Qin só estará seguro se existir uma linha de abastecimento partindo do território de Qin e chegando a Gyou. Como eles conseguirão isso é que a grande questão, maior do que como tomarão a cidade e enfrentarão o Riboku. Por enquanto essa questão está arreganhada e com lacunas. Só posso esperar que você chegue com novas suposições nos comentários e desvende a xarada, porque a resposta do Hara pode demorar bastante ainda.

Ele está no mesmo nível do Ousen ou apenas conhece o Ousen?

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Publicado em Kingdom, Review por Ityuli. Marque Link Permanente.

Sobre Ityuli

Psicólogo, negro e cabeludo, mestrando em educação e saúde pela UNIFESP - Guarulhos. Me interesso pela sociedade e seu funcionamento. Por causa disso, estou sempre lendo os mangás com olhar crítico e enxergando nosso mundo atual nas histórias fantasiosas de mundos alternativos.